Já havia comentado com vocês que tenho muitos artistas na família.
Uma tia que é atriz,um primo que é cantor,outra tia que é poetisa.
Pois é, hoje não vou só comentar,vou publicar aqui o texto da minha querida Tia Malú,e vocês mesmos irão conferir como a "coisa tá no sangue" de verdade.
A festa era aqui dentro e os foguetes lá na praça.
Naquela época, lá nos confins da minha terra existiam poucos meios de comunicação, no entanto minha mãe ouvia a rádio Guaíba e assinava a revista O Cruzeiro, que embora chegasse sempre em atraso, trazia-nos as informações mais quentes do que acontecia pelo mundo afora.
Um dia como de costume, recebi dois ou três exemplares da revista e antes de avisar que tinham chegado, me apossei delas e fui ler as escondidas.
Entre tantas notícias interessantes, uma em especial chamou minha atenção.
Li que se encontrava em teste no meio médico, a pílula anticoncepcional. Apesar da pouca idade que tinha aquilo me admirou, achei sensacional.Por um momento senti intuitivamente, a revolução que aquela descoberta traria ao mundo e as mulheres da minha geração.
Encantada com a notícia e com a minha capacidade em entender o que li, corri atrás de alguém para contar a novidade, ao chegar na sala da lareira onde minha família costumava estar reunida, encontrei somente meu avô.
Como sempre sentado em sua poltrona preferida e com sua mão apoiada na bengala e de saída para o Clube, onde passava suas tardes no carteado com os amigos e fui logo implorando.
- Espere, tenho uma coisa para lhe mostrar.
O velho estranhando minha excitação e euforia sentou-se novamente e perguntou.
- O que queres me mostrar?
- Olha . . . Tem uma notícia aqui nesta revista;
Naquele momento vacilei, senti uma ponta de dúvida, contar logo para meu avô aquela notícia, era muito atrevida para a minha idade e não era comum tanta liberdade entre os avós e suas netas naquele tempo, mas não recuei, fui em frente motivada pela grande novidade que havia descoberto.
- Está escrito aqui, que inventaram um remédio, para as mulheres não ficarem grávidas;
Vovô a princípio arregalou os olhos, tossiu, acomodou-se melhor na poltrona e disse.
- É . . . Leia ai, do o que se trata.
Com meu coração batendo em disparada e até gaguejando, li pausadamente para ele e quando terminei ele naturalmente comemorou.
- Que maravilha! Este mundo está de ponta cabeça . . . quê mais não inventam !!??
E então para meu alívio e surpresa, aquele velho homem que anunciava ser feliz por ter feito todas as coisas que quis em sua vida, me sai com esta.
- Que coisa, heim minha filha.! Quem dera já tivesse este remédio quando eu e minha velha éramos moços.
Eu então animada com a importância que ele havia dado a minha descoberta e a minha petulância fui logo disparando.
- Posso perguntar uma coisa?
- Sim, pergunte.
- Se antes não existia esta pílula, como foi que meu tio nasceu só nove anos depois da titia????????
Novamente arregalou os olhos e num ato de total cumplicidade perguntou.
- Onde estão tua avó e tua mãe?
- Lá na cozinha, respondi.
- Olhe bem, veja se não estão atrás da porta ouvindo nossa conversa.
Meu coração batia em disparada, minha mão suava, alegria e orgulho me dominavam naquele instante, corri até a outra sala e me certifiquei de que estavam entretidas na lida da cozinha.
- Sim, estão lá na cozinha.
- Então, vou te contar como aconteceu o que me perguntou. Era assim, e olhando fixamente dentro dos meus olhos de espanto, me deu a resposta mais intrigante de que foi capaz.
- Assim . . . A festa era aqui dentro e os foguetes lá na praça.
Levantou-se devagar, pegou sua bengala e seu chapéu de feltro cinza chumbo e foi jogar seu carteado no Clube Comercial.
Maria Lúcia Medeiros Teixeira